Still Cabanon Anozero’17 Bienal de Coimbra

Ano: 2017

Still Cabanon

Em 1952, Le Corbusier projeta para si um pequeno edifício de madeira que ocuparia durante anos como casa-abrigo. Le Cabanon ficou para a história como uma reflexão sobre a condensação do espaço de habitar, sobre a polivalência do espaço e dos seus usos.

Após esta experiência radical, repetidas vezes revisitada por criadores que se movem no território do Espaço, como pensar o habitar mínimo e a sua polivalência de espaços e usos, o refúgio, lugar condensado do conforto, e a sua permanência ou efemeridade? Esta pergunta foi o desafio lançado a um conjunto de autores de diferentes áreas disciplinares como a arte, a arquitetura e o design, que se propõe pensar e desenhar um espaço íntimo de abrigo para si próprios, onde se desenvolvam as suas reflexões em torno do habitar no Século XXI, no âmbito da programação convergente do Anozero´17 – Bienal de Coimbra. Em parceria com a Artworks, neste projeto fomos simultaneamente arquitetos e curadores. O texto que se segue diz respeito à solução do Atelier do Corvo.

A CASA DA VIDA *

Vivendo nós uma cada vez mais presente realidade virtual, na qual a nossa presença se mede pelas conexões mediadas que estabelecemos e permitimos estabelecer, o Still Cabanon poderia apresentar-se como um retorno romântico e fora de tempo à casa refúgio, ao espaço mínimo do conforto, em suma, ao confronto com o nosso corpo num espaço limitado fisicamente. No entanto, este retorno é para nós uma oportunidade de pensar uma estrutura espacial para os corpos experienciarem as formas arquitetónicas como movimento e como desenho do vazio**.Como a casa para ser habitada precisa de ser apropriada, caracterizada e vestida por quem nela vive***, tornou-se inevitável que esta fosse para nós e os nossos filhos. Obedecer ao espaço mínimo do contentor, foi o princípio a manter, mas também a poder contornar. Assim como os ninhos costumam estar nas árvores, precisámos de alterar a perceção da dimensão de um espaço marcadamente horizontal, propondo a verticalidade como eixo dominante. Sabíamos que esta casa tinha que ser em betão, porque o contentor seria a sua cofragem e o vazio interior seria definido pelo negativo dos espaços mínimos que queríamos definir. Começamos então a ocupar o vazio com a sala-cozinha-escadas-casa de banho-quartos-varandas-terraço. E à medida que íamos vivendo um espaço, abríamos vãos. Uns pequenos, outros maiores, recuados ou em projeção para o exterior, disponibilizando-se para receber a luz e a sombra em distintos enquadramentos. Percebemos também que precisávamos em alguns espaços, que o interior se projetasse para o exterior e não fosse rígido e fixo como o betão e lembrámo-nos da flexibilidade que as mangas em fole permitem aos pesados e rígidos comboios e autocarros. No final da espiral vertical em torno do vazio, acede-se ao terraço, a 11 metros de altura, através de uma escada exterior em aço, encerrada por todos os lados, exceto na cobertura, dirigindo-nos o olhar para o céu, enquanto subimos. Esta casa pode existir na previsível paisagem idílica, bem como no território urbano construído, porque também aí a casa é abrigo. Esta solução admite e deseja a sua multiplicação. A repetição do princípio garante o conjunto na sua expressão mais ampla e versátil.

* Apropriamo-nos do nome do livro de Mario Praz, “The House of Life”, porque gostaríamos que a descrição de cada espaço desse apartamento, aqui estivesse em surdina.

**Gernot Böhme, Atmosphere as Mindful Physical Presence in Space

*** Como refere Mario Praz, a casa e o seu interior são um continuum que reflete o carácter e a personalidade de quem nela vive.