Reconstrução e musealização da Torre e necrópole do Antigo Castelo de Miranda do Corvo

Ano: 2011 – 2019
Local: Miranda do Corvo, Portugal
Fotografia: Jorge das Neves

Da construção defensiva medieval que se crê ter existido neste promontório, o Monte Calvário, já só restam como testemunhos a torre e a cisterna. Sobre o património herdado, resultado de tantas transformações ocorridas ao longo dos tempos, procurámos utilizar uma linguagem e um processo construtivo intemporal, buscando retomar a condição “chã” do conjunto e assim devolver dignidade à degradada Torre, necrópole e cisterna. Os materiais utilizados foram as madeiras, alvenarias de pedra, rebocos de argamassas pobres, tijolo maciço aparente, mas também laje de betão ajardinada sobre a necrópole, caixilharia em aço pintado e vidro maciço artesanal.

Torre

Consolidaram-se muros de contenção de terras e propuseram-se outros que clarificassem o percurso de acesso à Torre. Foram executados em alvenarias de pedra aparente e rebocadas com argamassas pobres. Demoliram-se as construções espúrias existentes que desqualificavam a edificação e colocavam em risco a sua própria solidez ao introduzirem cargas para as quais o sistema construtivo não estava preparado.

Propuseram-se umas escadas interiores na torre, ligando o patamar existente ao embasamento, ligação esta que não existia. A proposta quis unificar o acesso aos sinos, ao sistema mecânico do relógio e ao miradouro, assim como o acesso às sepulturas na cota baixa, descobertas durante a obra, descoberta essa que inviabilizou a possibilidade de ligação interna entre a torre e a cisterna.

As escadas, o gradeamento, o piso e a cobertura do miradouro foram executadas em madeira de Tacula. O módulo do degrau deu origem a uma geometria que dá a regra a toda a solução: dimensão do espelho e cobertor, ritmo da guarda da escada, ritmo da parede guarda do piso elevado/miradouro, geometria da estrutura do pavimento e da cobertura. Pelo exterior, essa cobertura é revestida em camarinha de cobre com junta agrafada. A escada, solta das paredes, é apenas fixada pontualmente no acesso da porta Poente e no miradouro que se desenha na cobertura. As escadas – e todos os trabalhos de madeira – foram construídas segundo um sistema de entalhes tradicionais em que os elementos verticais e os elementos horizontais de suporte das réguas dos patamares e dos cobertores se travam, criando uma estrutura unitária, autoportante, estável e flexível.

Necrópole

Não se suspeitava da existência desta considerável necrópole. Descoberta durante as escavações, tornou-se necessário permitir a sua visita ao público. Rapidamente rejeitámos qualquer possibilidade de a cobrir com vidro. Em alternativa, executou-se uma cobertura ajardinada de betão, assim como um muro de contenção de terras e proteção das sepulturas que entretanto ficaram expostas às intempéries, possibilitando a sua visita apenas pela cota baixa, na qual o visitante está a um nível inferior às próprias sepulturas. Pelo exterior, marcando-se o lugar de cabeceira de cada sepultura, tubos compactos de acrílico cartografam a sua localização. Este dispositivo é também um elemento condutor de luz natural. A partir da pequena antecâmara, apenas se vêm as sepulturas mais próximas, sendo as restantes percecionadas pelo revestimento em aço polido do teto que as reflete. Usando este dispositivo cenográfico, pretendeu-se dar a conhecer o resultado das escavações, mas evitar o contacto imediato com as sepulturas criando assim uma atmosfera solene que um lugar como este deve convocar.

Cisterna

A Cisterna foi coberta por uma nova abóboda, executada em tijolo de face à vista e argamassas pobres e iluminada por um sistema de óculos vidrados. Este espaço conterá informação sobre os achados arqueológicos encontrados e estudados durante a duração da obra.